domingo, 30 de outubro de 2011

CRÍTICA - Uma Longa Viagem


LÚCIA MURAT / BRASIL, 2011 / 110 MIN.
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Um registro de família convertido em uma viagem cheia de vida, liberdade e consequência. Em Uma Longa Viagem, Lúcia Murat desencava sentimentos, memórias e doloridas lembranças para compor um documento intenso e humano sobre um tempo e sobre a aventura.

São três os personagens dessa história, mas apenas um é vivamente representado. É dele que emana uma vivência única, tresloucada, libertária. Mas que também o obriga a trazer na algibeira das experiências um amargo reflexo das drogas: a esquizofrenia.

Lúcia, Heitor e Miguel são três irmãos que seguiram caminhos diferentes na vida. Miguel se formou em medicina. Lucia, por envolvimento com militantes de esquerda, acabou presa e torturada nos porões da ditadura. Heitor viajou o mundo, provou todas as drogas exóticas e regressou esquizofrênico.

É a partir de cartas escritas por Heitor e recordações afetivas ou doloridas de Lúcia que o documentário resgata a memória de um tempo e de ocorrências que marcaram a família. Com inventividade e recursos visuais cênicos simples, o filme nos insere na loucura de Heitor, em suas viagens pelo mundo e pelas drogas. Pontuando os desvarios de Heitor, temos o depoimento franco de Lúcia sobre sua penúria na prisão.

Uma Longa Viagem é um documentário habilidoso em lidar com a narrativa. Tem na dedicada presença cênica do ator Caio Blat sua cota de “ficcionalização” para dar vida ao documento: cartas, pensamentos, reflexões. Fala de liberdade extremada, mas também das consequências dela. Um filme envolvente, apaixonante, vivo.
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CRÍTICA - Ninguém Além de Você

POUPOUPIDOU / GERÁLD HUSTACHE-MATHIEU / FRANÇA / 90 MIN.
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Filmado na região mais fria da França, conhecida como "pequena Sibéria", Ninguém Além de Você é um filme policial divertido e sem grandes pretensões.

O escritor de romances policiais David Rousseau (Jean-Paul Rouve) vai até a região de  Franche-Comté receber uma herança deixada por um tio falecido recentemente. Preocupado com a falta de inspiração para um novo livro e vendo que não herdou nada de valor, tudo que ele quer é sair logo daquele lugar. Antes, porém, depara-se com um inesperado e estranho caso de suicídio de uma jovem celebridade local.

Curioso e buscando inspiração, decide investigar o caso por conta própria. É assim que passa a conhecer postumamente Candice Lecoeur, nome artístico de Martine Langevin (Sophie Qunton). Ela é uma jovem que parece reconstituir a mesma vida que teve Marilyn Monroe, como se fosse a reencarnação da atriz. Candice vivencia histórias semelhantes à da vida de Marilyn. Casos amorosos, ascensão na carreira, sedução de homens poderosos e outras coincidências, revivem em escala local as passagens da vida de Marilyn.

David se aprofunda nessas coincidências na vida de Candice ao leu seus diários, que ela se manteve escrevendo e colecionando desde a adolescência. Como filme policial, a trama não apresenta nenhuma novidade, preservando algum suspense e desdobrando pistas que levarão até a solução do caso, até então indefinido entre suicídio ou assassinato.

Pontuado com um humor suave, o filme tem o bom senso de rir de si mesmo. Esse alívio cômico declara uma saudável despretensão. É o que impede que o filme, em sua verve policialesca,  se traia ao cair no erro de se levar a sério demais, o que poderia resultar em um irrecuperável ridículo.

Da maneira como é levado, sustenta-se como boa obra de gênero, capaz de segurar a atenção e não cair na monotonia. Se a verossimilhança escorrega aqui e ali, e se o roteiro tem lá seus furos, nada disso atrapalha o prazer de assisti-lo.
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CRÍTICA - Marighella

ISA GRINSPUM FERRAZ / BRASIL, 2011 / 100 MIN.
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É indiscutível a importância do resgate e preservação da memória e da história de um povo. Importância que está acima de linhas formais ou estéticas. Este é o caso de Marighella, documentário que pretende desdobrar um pouco mais da vida de Carlos Marighella, controverso líder da luta armada no Brasil durante a ditadura militar.

A linha de partida para a realização dessa investigação é a memória afetiva de sua sobrinha, Isa Grinspum Ferraz, realizadora  do filme. Como ela mesma diz no início do documentário, mais do que entender quem foi Marighella a ela interessava descobrir quem foi seu tio Carlos; um sujeito que aparecia e desaparecia de sua infância, mas que a deixou marcada pela figura amorosa e misteriosa.

Essa investigação segue pistas que dão nome aos capítulos do documentário. Cada pista/capítulo desvenda uma faceta do mito Marighella. E a cada desdobramento, muitas facetas se misturam para formar um retrato em múltiplas dimensões. Com essas facetas, o resultado inconcluso parecer ser o mais adequado ao ser humano, antes do mito - com seus acertos e erros, com suas idiossincrasias e contradições.

Formalmente, contudo, o documentário repete o cansativo repertório de “cabeças falantes”. É o nome que se dá ao velho formato que alterna muitas entrevistas (enquadradas em plano médio, daí o termo em inglês talking heads) com imagens de arquivo. Cansativa e repetitiva, essa fórmula funciona mal quando o filme se apoia em excesso sobre ela.

Neste caso, para uma personalidade que passou a vida dedicada a uma causa, o resultado acaba por ser frio, distante do calor do momento histórico que revive. A falta de imagens novas da época ou de documentos também contribui para uma pobreza de arquivo. Isso é visualmente notado quando muitas vezes se preenche o quadro com cenas de filmes ou imagens “forçadamente” vinculadas à narrativa.

Com nada de inventivo em sua fórmula, Marighella fica como mais uma peça do mosaico que há tempos nosso cinema tenta compor sobre os anos da ditadura e as figuras que cumpriram papéis importantes nesse período. É relevante como registro, mas muito pobre como cinema.
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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

ENTREVISTA – “Didi Mocó foi minha grande inspiração”, afirma Selton Mello


Em uma concorrida sessão da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Selton Mello exibiu seu novo trabalho na direção, o filme O Palhaço.

A exibição ocorreu na última segunda-feira (24), no Cine Livraria Cultura, e obteve uma calorosa recepção do público, que lotou o cinema e aplaudiu muito no final.

Ao lado de grande parte do elenco, Selton apresentou o filme à plateia e voltou após a exibição para conversar com o público.

Diferente de seu primeiro filme, o denso e amargo Feliz Natal (2008), O Palhaço é um filme que transborda lirismo e poesia. A melancolia continua presente, mas desta vez vem cercada pelo encanto do circo e recheada com humor sensível e delicado.

Selton disse que sua intenção foi fazer um filme sonhador e cheio de delicadeza. “Eu sinto falta disso como espectador de cinema”.

Como é quase impossível fazer um filme sobre o circo sem se livrar do fantasma de Fellini, Mello afirma que as referências em seu filme existem naturalmente e que o grande desafio foi contar sua história de um jeito próprio, com a cara que ele queria.

“Você sempre resvala em Fellini e aí tem que ficar driblando ele nas imagens, driblando o Nino Rota na trilha, porque a força imagética que o Fellini imprimiu com o circo é muito forte.”

“Mas existem outras referências”, ressalta Selton Mello. “É curioso que todo mundo fala de Fellini, mas poucos identificam que no filme tem muito de Ettore Scola, ali tem um pouco de A Viagem do Capitão Tornado (1990), de Feios, Sujos e Malvados (1976)”.


Selton conta que sempre sonhou em fazer um filme para o grande público, mas com camadas sensíveis de entendimento, algo popular que não perdesse a ternura.

“É um caminho do meio, que não vejo ninguém fazendo hoje. O cinema nacional ou é muito radical ou é muito popular. Mas será que não é possível fazer um filme que se comunique bastante e que seja sensível?”, questiona o diretor.

Sobre o humor em O Palhaço, diz que havia uma vontade muito grande de fazer algo sutil. “É um humor que não força a barra, que não arranca o riso a fórceps, como acontece muito hoje.”

Quando perguntado que outras influências que o filme poderia ter, Selton Mello foi direto: “Didi Mocó”.

Ele conta que entre suas principais memórias afetivas estão as idas ao cinema com a mãe, quando viam até três sessões seguidas do mesmo filme dos Trapalhões. ”A gente levava sanduíche e fazia uma verdadeira farofada no cinema.”

E completa com firmeza: “Adoro Scola, adoro Fellini, mas minha grande influência para este filme se chama Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbo”.
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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

CRÍTICA - O Outro Lado do Sono


THE OTHER SIDE OF SLEEP / REBECCA DALY / IRLANDA, HUNGRIA, HOLANDA, 2011 / 88 MIN.
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Pesadelo ou realidade? O primeiro plano de O Outro Lado do Sono nos coloca diante de uma dúvida onírica. Como quando despertamos de um pesadelo, o filme se inicia com a estranheza de uma realidade pouco densa, incerta. Plano a plano, também como se despertasse lentamente, a dúvida vai cada vez mais se condensando, saindo do onírico e ganhando a realidade, sem nunca revelar a certeza.

Em uma cidade no interior da Irlanda, Arlene (Antonia Campbell-Hughes) vive sozinha em seu apartamento, próximo a uma floresta. Ela trabalha em uma fábrica local e leva uma vida solitária. Marcada pela perda da mãe quando era muito jovem, pode ter nesse trauma o princípio de seu distúrbio do sono. Arlene sofre de sonambulismo e teme o que possa acontecer durante os ataques desse distúrbio. Por isso, muitas vezes bloqueia a porta de seu apartamento com móveis antes de dormir.

Mas nem sempre isso é suficiente. Quando conhecemos Arlene ela acaba de despertar no meio da floresta, ao lado de um cadáver. Mas, como todo despertar, este está envolto pelo sono, indefinido na incerteza de sonho ou realidade.

Essa dúvida se intensifica quando se espalha na comunidade a notícia do assassinato de uma garota da região, cujo corpo foi encontrado naquela manhã na floresta. A partir desse momento a vida de Arlene imerge numa estressante agonia, fazendo com que ela se prive do sono ao mesmo tempo que coleciona notícias sobre a morte da garota.

Trabalhado como um suspense psicológico, o filme constrói uma atmosfera que goteja paranoia, neurose e esquizofrenia em doses sutis. Cria assim uma tensão permanente. A cadência narrativa é lenta, distendendo o tempo e prolongando a expectativa com eficiência. Entre algumas fragmentações e descontinuidade temporal, vemos Arlene experimentar a confusão mental, ao mesmo tempo que busca entender o que aconteceu.

Apresentando uma falha comum, O Outro Lado do Sono  prolonga-se demais, perdendo no final um pouco de sua tensão. Mesmo com essa falha, é um filme eficiente em fazer do medo e da dúvida o combustível do suspense. Acerta ao permear a história com tons de pesadelo, fragmentos de pensamentos, sensações e incertezas. Embora caia numa revelação final anticlimática, mostra-se bem resolvido dentro da atmosfera que o mantém sempre na névoa da dúvida.
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CRÍTICA - Por Que Você Está Chorando?


POURQUOI TU PLEURES? / KATIA LEWKOWICS / FRANÇA, 2011 / 99 MIN.
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Formatado como uma comédia picotada, este filme da francesa Katia Lewkowicz até consegue tirar boas risadas do público com seu humor neurótico. Não confundir claro, com o humor neurótico de Wood Allen dos anos 70/80. Aqui, este humor é muito mais direto, sustentado pela montagem rápida e desestruturado pela mesma montagem.

Arnaud (Benjamin Biolay) vai se casar em poucos dias. Ele passa a conhecer a família da moça, que é grega e não fala uma palavra em francês, exceto a mãe da noiva. Todo esse turbilhão de parentes, compromissos e preparação está se complicando, pois desde o início do filme a noiva (Valérie Donzelli) está sumida. Algo que é encarado até com alguma tranquilidade por todos. Mas há uma evidente dúvida no ar, uma insegurança dela em relação ao casamento.

Não há tempo para pensar. O filme caminha na mesma neurose que parece vivenciar a noiva sumida e sua numerosa e barulhenta família. Até que ela ressurge e temos a primeira surpresa do filme. Ela está finalmente decidida de que ama Arnaud de verdade e quer se casar com ele.

Vira o filme e seu registro. O ritmo diminui, a montagem desacelera. Agora é Arnaud que tem dúvidas sobre casar-se ou não. Parte dessa dúvida vem de uma garota que conhece e pela qual crê estar apaixonado.

Com uma frenética alternância de pessoas em cenas, com pouco tempo para ambientação dos personagens na tela, o filme caminha sem muita conexão com o expectador. O drama que surge na tela se faz pouco tocante e a narrativa se retarda mais do que devia, cansando demais com uma história que passa do ponto de ser solucionada.

Querendo fechar com alguma melancolia ou lição de amor, o filme não vai além da monotonia e falta de sintonia. Um trabalho fraco, um roteiro pobre e uma narrativa que não entusiasma.
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NOTÍCIA - Clássico de Fellini terá exibição ao ar livre em parque de São Paulo.


Uma cópia restaurada do filme Amarcord, de Federico Fellini, será exibida ao ar livre no Parque do Ibirapuera. A sessão ocorrerá na área externa do Auditório Ibirapuera no próximo domingo (30), às 20h. A exibição é aberta e gratuita.

A iniciativa faz parte da homenagem que a Mostra faz nesta 35ª edição ao compositor Nino Rota (1911 - 1979). Rota é responsável por diversas trilhas marcantes do cinema  italiano e trabalho nos principais filmes de Fellini.

Baseado nas memórias do próprio Fellini, Amarcord é uma viagem nostálgica, cheia de humor e beleza. O filme faz diversos recortes fragmentados da vida de uma pequena cidade costeira italiana nos anos 30 durante a ascensão do facismo. O filme foi vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro.
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Serviço:

Auditório do Ibirapuera (área externa)
Av. Pedro Álvares Cabral, s/n - Parque do Ibirapuera Portão 2
Grátis

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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

CRÍTICA - O Palhaço


SELTON MELLO / BRASIL, 2011 / 90 MIN.
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Lírico, delicado, melancólico, esperançoso. Estes são alguns dos adjetivos empregados para se falar de O Palhaço, segundo filme dirigido pelo ator Selton Mello. Os adjetivos estão corretos; é difícil falar dessa obra sem repeti-los.

Benjamim (Selton Mello) desenvolve uma obsessão por ventiladores. Como que descontextualizada e ao mesmo tempo simbólica, essa obsessão atravessa o filme para significar o achado, a conquista de algo tão simples como um ventilador. Não se engane com esta ilusória simplicidade. Aqui, o eletrodoméstico marca uma redescoberta íntima em Benjamim, que passa todo o filme perdido diante da dúvida sobre sua vocação e futuro.

Se no picadeiro Benjamim é o palhaço Pangaré, fora dele é melancolia sempre. Apresenta-se com seu pai, o palhaço Puro Sangue (Paulo José), dono do circo Esperança. Forma, com outros artistas, uma trupe que percorre as pequenas cidades do interior com seu espetáculo, muitas vezes tão pobre e precário quanto as pessoas que o vão aplaudir.

Benjamim vive uma crise interna. Faz rir, mas não encontra quem o faça rir. Ele é o palhaço triste; arquétipo que emana de seu íntimo, não de sua maquiagem. Transita quase sem entusiasmo pelos problemas recorrentes dos outros artistas, que absorve como seus, aprofundando sua insatisfação melancólica com a vida mambembe.

Mello cria um registro lírico em um filme de estrada, como bem manda a cartilha dos filmes de circo. Mas não se entrega a clichês fellinianos ou a sentimentalismos baratos, de sentimentos fáceis. Seu protagonista carrega na tristeza a mesma complexidade e a mesma simplicidade do humano. Ele tem dúvida, amargura-se com ela e vai em busca das respostas.

Não por acaso Benjamim precisa tirar sua identidade, documento que o registra no mundo com rosto, ao contrário da certidão, que apena diz que ele é nascido. Junto com o ventilador, é uma identidade que ele busca. A descoberta de quem ele é, em todos os sentidos.

Enquanto segue pela busca ou amarga na angústia de seu herói desarmado, O Palhaço entrega sucessivas pílulas de riso, revestidas de delicadeza, incertezas, fragilidades. É um humor dosado, sem apelos baixos, de uma doçura comovente e sincera. Nesta narrativa de descoberta e beleza, o ritmo patina no início, demorando-se mais que o necessário nas cenas de circo, que melhor efeito teriam se reservadas com maior volume apenas para o fim. Nada que desmereça a graça de O Palhaço.

É uma história que obtém sua grande verdade na epifania do riso, algo de valor inestimável quando construído ou nascido das humanas verdades, não das hipócritas manipulações do ridículo.

Se a tristeza parece ser o tema universal do cinema de Selton Mello - como parecia prenunciado no densamente amargo Feliz Natal, seu primeiro filme - em O Palhaço ele a trabalha com esperança. Sem plenas felicidades, mas com a revelação da vida e do humano no simples gesto de rir e de fazer rir.
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NOTÍCIA – Com muitos problemas nas exibições digitais, Mostra divulga nota de esclarecimento.


Já aconteceu comigo e com amigos nesta Mostra. De repente, o filme trava. A espera pode levar minutos, o que prejudica toda a programação de quem está saltando de uma sessão para a outra contando com a pontualidade. Pontualidade que, mesmo sem contratempos, é rara na maioria das sessões. Os travamentos têm ocorrido com as cópias digitais, cada vez mais comuns nas projeções. 

Diante do grande número de vezes que isso vem ocorrendo, a organização da Mostra divulgou hoje à noite a nota de esclarecimento que o Eu, Cinema reproduz abaixo:


NOTA DE ESCLARECIMENTO – PROJEÇÕES DIGITAIS

A 35ª Mostra gostaria de esclarecer os recentes problemas em projeções digitais em algumas sessões do evento.

A organização do festival tem a maior preocupação com suas projeções e seu público. Ao convidar um filme para fazer parte da sua programação, ou ao selecioná-lo, a Mostra contata os seus produtores e fica a cargo deles a decisão sobre o formato do filme a ser enviado.  Cada vez menos os produtores se dispõem a produzir cópias 35mm, mais caras que as cópias digitais. Mesmo alguns filmes clássicos exibidos na Mostra em suas apresentações especiais foram restaurados digitalmente e nos são enviados no formato DCP com alta resolução (2K). Como foram apresentados em Cannes, Berlim e outros grandes festivais.

Devemos esclarecer que a Mostra não dá preferência aos formatos digitais, e sim às cópias 35 mm, uma vez que elas têm mais possibilidades de exibição nas salas que fazem parte do circuito da Mostra.
Mas neste momento vivemos o impasse da digitalização do cinema e das salas de exibição. E, como apontam reportagens recém-publicadas nos grandes jornais, os mercados europeu e americano encontram-se num estágio muito mais avançado do que o brasileiro no que se refere ao equipamento digital das salas de cinema.

 Neste ano, cerca de 50% dos filmes que confirmaram sua participação na Mostra vêm em formato digital – por opção dos produtores, e não do festival. Para esta edição, houve a preocupação de fazer uma parceria com o Polo Cinematográfico de Paulínia para se ter mais projetores 2K que exibem DCP. Com o aluguel de três projetores DCP, o número de salas que exibem o formato durante o evento aumentou de três para seis. Ainda assim essas seis salas se deparam com uma grande demanda de filmes desse formato.

A direção da Mostra também teve a preocupação de não mais exibir DVcams para melhorar a qualidade da projeção. Os filmes internacionais recebidos em formato digital são encodados (convertidos) no padrão de exibição Mobz – os nacionais são encodados diretamente pelas produtoras – e são exibidos por ela e pela Auwe, as duas únicas empresas de projeção digital que operam nos cinemas da cidade.

A organização da 35ª Mostra está ciente dos problemas ocorridos nas projeções digitais e está colocando todo o seu empenho em resolvê-los junto aos fornecedores, exigindo um padrão de excelência que faça jus a nosso público.

A 35ª Mostra é produzida pela ABMIC – Associação Brasileira Mostra Internacional de Cinema.
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CRÍTICA - Os 3


NANDO OLIVAL / BRASIL, 2011 / 78 MIN.
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Ao abrir seu filme descrevendo o óbvio significado das palavras amizade, amor, paixão e tesão, o diretor Nando Olival nos lança de imediato um desnecessário clichê. Estreando na direção solo (ele codirigiu o longa “Domésticas”, ao lado de Fernando Meirelles), Olival se deixa levar por muitos lugares-comuns, que se repetem ao longo do filme, prenunciados desde a abertura.

É o caso, por exemplo, da narração feita por Rafael (Victor Mendes). Uma muleta explicativa que abre e pontua a narrativa com excesso de didatismo, explicando com alguma verborragia o que já está claro (ou poderia estar) na tela, através das imagens.

Recém-chegado a São Paulo para cursar a universidade, Rafael conhece em uma festa Camila (Juliana Schalch) e Cazé (Gabriel Godoy). Também vindos do interior para estudar, entre eles apenas Cazé tem lugar definido para morar. Ele alugou o segundo andar de um velho prédio industrial desativado, no centro da cidade. Com espaço de sobra, convida os dois para morar com ele.

Uma regra é criada logo de início: durante os quatros anos de estudos não poderão se relacionar entre si. Com a concordância de todos, seguem vivendo juntos. Rafael, como narrador, vai explicando os altos e baixos da convivência até chegarem ao último ano. É quando apresentam um trabalho de conclusão que propõe um reality show online com vendas em tempo real. Um empresário que assistia à apresentação convida os três a realizarem o projeto com eles mesmos como participantes.

Os três resistem à ideia de início, mas acabam aceitando. Para aumentar a audiência do programa, criam por conta própria um roteiro para interpretarem diante das câmeras. Surgem então falsas intrigas, brigas e um inevitável triângulo amoroso. Porém, com sentimentos reais em jogo, os três passam a ter dificuldade em diferenciar o que é real e o que é simulação.

A boa química entre os três atores deixa os diálogos espontâneos, com naturalidade e fluidez. Mas não bastam para salvar o filme, que se perde nas inconsistências do roteiro, com uma pretensão de crítica à televisão que não se sustenta muito bem. Com os muitos clichês e um final bobo, o filme se torna uma colagem de ideias interessantes desperdiçadas pelo roteiro fraco.
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CRÍTICA - Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios


BETO BRANT E RENATO CIASCA / BRASIL, 2011 / 100 MIN.
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Renato Ciasca, um dos diretores de Eu Receberia..., disse pouco antes da sessão começar que esse era um filme sobre o amor incondicional. Após a sessão, Beto Brant, o outro diretor, ressaltou o aspecto sensorial da obra, muito mais que o narrativo; como no livro homônimo de Marçal Aquino, no qual a história é baseada.

Em Eu Receberia... há, de fato, ambas as coisas. Um amor desmedido e uma intenção sensorial no modo como a trama se desenrola. Já no primeiro plano do filme, que logo depois se revelará desconectado da narrativa, temos essa impressão.

Sem rodeios, conhecemos Lavínia (Camila Pitanga). Sua primeira aparição revela um desconcerto. Depois, o fogo inconsumível. Em uma cidade no interior do Pará, ela se entrega ao forasteiro Cauby (Gustavo Machado). Ele é fotógrafo profissional, não sabemos de onde vem nem porque está lá. Lavínia é esposa do líder religioso da comunidade. Essa relação levará ambos a enfrentar graves consequências.

O amor de Lavínia e Cauby só pode ser entendido pelo sensorial. Brant e Ciasca entenderam isso muito bem. No livro, a construção dessa relação perpassa tempos mortos intercalados pela efervescência das horas de sexo. Isso também foi entendido pelo filme, que traz cenas quentes da nudez de Camila Pitanga.

Mas é justamente o excesso de “entendimento” do livro e a transposição disso para a tela o problema do filme. Não que a adaptação caia no erro da literalidade, o que seria um desastre. Mas para tentar traduzir o intangível da relação dos amantes, arrisca uma construção que distende e ao mesmo tempo fragmenta o tempo. O excesso de fade out entre os planos atravanca o fluxo narrativo e o filme nunca alcança a tensão que existe nos perigos que anuncia.

Como o que há de mais sólido na aventura desses amantes é o perigo iminente e as consequências inesperadas, o filme perde esse vigor e faz tudo seguir sem a dimensão dos conflitos e com evasivas ameaças. Quando o mundo finalmente desaba, não há dramaticidade. Tanto atores como os acontecimentos parecem uma conformação achatada e apática de uma tragédia sem retorno.

Em um efeito reverso, o filme que tentava intensificar a paixão, acaba por resumi-la a cenas de sexo e reações adversas de Lavínia. Mesmo contando em longo flashback a natureza de seu casamento, não consegue dar-lhe mais profundidade que a da mulher emocionalmente instável e ardorosa amante. Ao adaptar um bom livro, as intenções eram ótimas, mas o resultado acaba sendo fraco.
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CRÍTICA - Vou Rifar Meu Coração


ANA RIEPER / BRASIL, 2011 / 76 MIN.
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Mais do que simplesmente falar da música brega – adjetivo que pode englobar um amplo leque de subcategorias – o documentário de Ana Rieper é uma viagem pela natureza sentimental brasileira. O que pode ser mais brasileiro que a simplicidade de paragens precárias, bares, prostíbulos, casas semiacabadas e dores sentimentais? E qual música melhor representa este sentimento, quando a pobreza se mistura à infelicidade no amor?

Ao buscar histórias de vida cujos fatos se relacionam com as melosas e doloridas letras das canções bregas, o filme faz um retrato que evidencia que na dor da “cornitude” e no fogo da paixão, não se distingue pobres de ricos. Como afirma Lindomar Castilho, ao dizer que quando se leva um “pé na bunda”, tanto o pedreiro quanto o médico choram e sofrem do mesmo jeito.

Vou Rifar Meu Coração, título que se refere à letra de uma das mais conhecidas canções do gênero, é composto de retratos e canções. São histórias de perda, dor, traição e situações absurdas. Essas histórias se emolduram pelas canções e pelos depoimentos de nomes de relevo desse universo artístico. Amado Batista, Lindomar Castilho, Aguinaldo Timóteo, Wando, Nelson Ned, entre outros, exemplificam e explicam a natureza sincera e arrebatadora de suas canções.

Acusado de machista pelas eternas e ridículas patrulhas dos bons modos, o filme traz na verdade uma carga de sinceridade difícil de se ver no cinema. Sem julgamentos, apresenta o afetivo que reside na memória de nossa simplicidade. Suas histórias, sofridas e engraçadas ao mesmo tempo, são o reflexo de nossa condição mais verdadeira, na qual o tesão, a paixão e o amor derramado não encontram barreiras de classe.

Nos igualamos, sempre, pelo sentimento doloroso do amor. Pelo sentimento doloroso da perda. Pelo sentimento doloroso da um cancioneiro que se pode negar, mas do qual não se pode fugir. Porque está em todos nós.
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terça-feira, 25 de outubro de 2011

CRÍTICA - O Céu Sobre os Ombros


SÉRGIO BORGES / BRASIL, 2010 / 72 MIN.
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Já não há nada de novo em dizer que a realidade é mais estranha que a ficção. A complexidade de personagens que a vida tantas vezes nos apresenta podem facilmente parecer obra de um escritor (ou roteirista) sem bom senso para o realismo. É com essa sensação que vamos conhecendo os personagens reais que fazem parte do filme O Céu Sobre os Ombros.

Everlyn é uma transexual formada em psicologia. Para seu mestrado, estuda os diários de um hermafrodita do século 19. Para ganhar a vida, ministra cursos de sexualidade durante o dia e se prostitui durante a noite. Murari é adepto da seita Hare Krishna, trabalha na cozinha de um restaurante vegetariano e participa ativamente da Galoucura, a torcida organizada do Atlético Mineiro. Lwei é um angolano que vive no Brasil. Escritor nunca publicado, tem um filho com problemas mentais e não pensa em levar a vida muito adiante, vivendo uma permanente insatisfação que o faz cogitar a morte constantemente.

Apresentando-se com margens pouco definidas entre o documentário e a ficção, o filme é construído a partir de tempos mortos do cotidiano. Mas o cotidiano dos personagens que o filme retrata passa ao largo de uma normalidade clássica, comum e ordinária. É como se o documental “ficcionalizasse” esse cotidiano e os personagens interpretassem a si mesmos. Mas nesta interpretação - passível, sim, de simulacros - filtram-se muito mais verdades que o simples registro documental.

Fragmentado, incisivo, duro e sem artifícios, o filme se despe de pretensões articuladas para nos entregar um material direto, montado no propósito de revelar a marginalidade na qual seus personagens habitam. Um retrato da realidade que subverte a normalidade daquilo que, embora não pareça, é real.

O resultado é uma experiência íntima e visual que desmascara o universo particular dessas pessoas. Sem julgamentos, conclusões ou afetação. É simples e franco. Dele se subtrai a vida no concreto de vivê-la. Cada um a sua maneira, num limbo como o da ficção, mas com as dores sentidas na inverossímil e concreta realidade.
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CRÍTICA - Os Gigantes


LE GÉANTS / BOULI LANNERS / BÉLGICA, FRANÇA, LUXEMBURGO, 2011 / 84 MIN.
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No momento de maior desamparo dos três garotos de Os Gigantes, quando seria muito fácil pedir ajuda, a atitude que o mais jovem toma sedimenta algo que eles ainda não sabem, mas que talvez os defina pelo resto da vida.

Zack e Seth têm 13 e 17 anos. Deixados sozinhos pela mãe na casa de veraneio no interior da Bélgica, sabem que não poderão contar com ela durante as férias. Ela simplesmente não virá. Conhecem então o jovem Dany, também de 17 anos. Ele é frequentemente espancado pelo irmão mais velho e seus pais, muito velhos, também parecem ausentes de sua vida.

Os três se juntam e seguem uma marginalidade da inocência. Seus crimes não vão além de fumar um baseado, invadir uma casa vazia e negociar com um traficante aproveitador.

Perambulam com um companheirismo sincero, tentando sobreviver e tendo apenas uns aos outros com quem contar. São, acima de tudo, sobreviventes. É dessa força de sobrevivência, misturada com a ingenuidade do fim da infância, que o filme extrai sua poesia, beleza e também rispidez.

Na jornada que atravessam, pressentem (porque são jovens demais para saber) que o futuro ainda é vasto, que o tempo lhes sopra a favor. Parte da grande beleza do filme é ver como o mundo os agride repetidas vezes e mesmo assim são capazes de rir, de seguir adiante sem lamentar o que passou. Não deixam que a amargura os contamine, porque são jovens e gigantes diante do tempo.

Mais do que lealdade e amizade, o laço que se constrói entre eles é de fibra duradoura, de companheirismo e cumplicidade. Passem o que passarem, permanecerão juntos. Descobrem com o tempo que se bastam. Sabem, acima de tudo, que não importam as adversidades. Se permanecerem juntos, sobreviverão.
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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

NOTÍCIA - Diretor de 102 anos abre exibições ao ar livre da Mostra.


Já tradicional na Mostra, as exibições ao ar livre começam hoje na programação. Realizadas sob o Vão Livre do MASP, as sessões são gratuitas, com retirada de ingressos a partir de uma hora antes do início das sessões, que ocorrem sempre às 19h30.

Este ano, o primeiro filme a ser exibido é Singularidades de Uma Rapariga Loura, do diretor português Manoel de Oliveira. Aos 102 anos, Oliveira é o diretor mais velho em atividade no mundo.

Entre os destaques da programação ao ar livre está a delicada animação O Mágico, de Sylvain Chomet e o terror original Deixa Ela Entrar, de Tomas Alfredson. Veja abaixo a programação completa:

Terça-feira, 25/10 – Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, de Woody Allen
Quarta-feira, 26/10 – O Mágico, de Sylvain Chome
Quinta-feira, 27/10 – O Puritano da Rua Augusta, de Amácio Mazzaropi
Sexta-feira, 28/10 – Hanami – Cerejeiras em Flor, de Doris Dörrie
Segunda-feira, 31/10 – Lope, de Andrucha Waddington
Terça-feira, 01/11 – Deixa Ela Entrar, de Tomas Alfredson
Quarta-feira, 02/11 – Em um Mundo Melhor, de Susanne Bier
Quinta-feira, 03/11 – A Confirmar
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domingo, 23 de outubro de 2011

NOTÍCIA – Ciclo de encontros na FAAP começa amanhã com viúva de Elia Kazan.


Começa nesta segunda (24) a programação de encontros com o público de personalidades ligadas à sétima arte que a FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) promove em parceria com a Mostra. Nos encontros, convidados especiais falam ao público após a exibição de filmes. A entrada é gratuita.

A primeira convidada para o ciclo de encontros é Frances Kazan, viúva do cineasta Elia Kazan. Ela falará ao público após a exibição de Rio Violento, filme dirigido por Kazan em 1960 que foi restaurado recentemente.

Na terça (25), o convidado é Jan Harlan, que foi produtor executivo de filmes de Stanley Kubrick, entre eles Laranja Mecânica. Harlan falará ao público após a exibição do documentário Era Uma Vez... Laranja Mecânica. Dirigido por Antoine de Gaudemar, o documentário aborda as polêmicas que envolveram o lançamento do filme nos anos 70 e narra bastidores da produção.

Conversando com Scorsese
Outro destaque da programação é o encontro com o jornalista e crítico de cinema Richard Schickel, autor do livro Conversas com Scoreses, que será lançado durante a Mostra. Editado no Brasil pela editora Cosac Naify, o livro é resultado de anos de amizade entre Schickel e Scorsese.

Conversas com Scorsese é o registro de muitas horas de conversas com o diretor de obras como Os Bons companheiros e Os Infiltrados, no livro Scorsese fala sobre sua infância, a convivência com mafiosos que inspiraram alguns de seus filmes e também sobre seus fracassos, medos e obsessões.

Também faz parte da programação uma Master Class com o diretor francês Nikolas Klotz, mediada pelo crítico brasileiro Ruy Gardnier.
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Serviço:
FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado)
Rua Alagoas, 903 - Higienópolis.
Tel.: 3662-7000
Os ingressos serão distribuídos uma hora antes das apresentações.
Veja a programação completa abaixo:

Encontro com Frances Kazan
DIA 24/10/2011 – SEGUNDA
19:00 RIO VIOLENTO (WILD RIVER), de Elia Kazan (112’).
21:00 Encontro com Frances Kazan após a exibição do filme.

Encontro com Jan Harlan
DIA 25/10/2011 – TERÇA
19:00 ERA UMA VEZ... LARANJA MECÂNICA (ONCE UPON A TIME... A CLOCKWORK ORANGE), de Antoine de Gaudemar (52’).
20:00 Encontro com Jan Harlan após a exibição do filme.

Master Class com Nicolas Klotz e Ruy Gardnier
DIA 28/10/2011 – SEXTA
19:00 o cineasta francês e o crítico brasileiro discutirão as novas relações entre cinema, internet, salas de exibição e crítica de cinema.

Encontro com Richard Schickel
DIA 31/10/2011 – SEGUNDA
19:00 UMA CARTA PARA ELIA (A LETTER TO ELIA), de Martin Scorsese, Kent Jones (60’).
20:00 Encontro com Richard Schickel após a exibição do filme.
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CRÍTICA - Um Mundo Misterioso

UM MUNDO MISTERIOSO / RODRIGO MORENO / ALEMANHA, ARGENTINA, 2010 / 107 MIN.
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Ás vezes é preciso tirar o espectador da letargia das narrativas clássicas. Para isso, é preciso ousadia, gosto pelo risco. Rodrigo Moreno demonstra essa ousadia em Um Mundo Misterioso, pois se arrisca a incomodar o espectador. Um incômodo que surge quando o filme renega alguns elementos narrativos confortáveis a que estamos condicionados. No lugar, entrega uma desestrutura na qual o conflito, o objetivo e a trama dão vez a um dialético vazio.

Um Mundo Misterioso nos obriga a aceitar que o “nada” também pode ser alguma coisa. Note-se: ser, não necessariamente dizer. É o que deixa claro uma passagem do filme, no qual alguém conta o enredo de um romance de literatura barata e diz que depois do meio do livro não acontece mais nada na história. Quando o outro responde que não há problema algum numa história em que nada acontece, está dada a chave para aceitar o que se segue no filme.

Boris (Esteban Bigliardi) e Ana (Cecilia Rainero) são um casal de namorados que moram juntos. Até que ela pede um tempo. Desconcertado, Boris se muda para um hotel e passa a vagar num limbo existencial. Não parece ter objetivo, vontade ou mesmo empecilho para que seu limbo exista sem culpa ou incômodo. Mas Boris se move. E ao mover-se transita entre situações de apatia, mas que trazem no seu íntimo algum relevo de vida, natural em alguns momentos, insólito em outros.

Como na sequência da festa, em que a trilha sonora suspende a realidade. Boris troca diálogos nonsenses, experimenta a vagueza da noite, conhece estranhos, perambula. Não há tristeza, arrependimento ou euforia. É apenas um homem em si mesmo, sem adereços e sem encantos. Apenas um homem.

De fato, a partir de certo ponto, nada acontece em Um Mundo Misterioso. Vagamos pelo filme com a mesma despretensão que vaga Boris, até que este volta ao ponto em que começamos. Regressa depois de sereias, vazios, aventuras ocas de ação, mas cheias de um “algo mais” menos óbvio que o cotidiano. Como um Ulisses desmascarado e inerte, fuma, ouve uma canção na vitrola e sente-se novamente em casa.
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CRÍTICA - Belleville Tóquio

BELLEVILLE TÓQUIO / ELISE GIRARD / FRANÇA, 2010 / 75 MIN.
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Permanecer ou partir. O trânsito entre uma escolha e outra é a linha que sustenta Belleville Tóquio, dirigido pela estreante em longa-metragem Elise Girard. O permanecer ou partir, aqui, não está presente como uma dúvida clara. É muito mais um estado de suspensão, um limbo inconveniente.

Julien (Jérémie Elkaim) é um crítico de cinema que antes de viajar para um festival diz à esposa, Marie (Valérie Donzelli), que há outra mulher sua vida. Diz a Marie que a ama, mas não há mais paixão. Quer um tempo para entender seus sentimentos. Pega de surpresa, Marie retarda a assimilação do rompimento, ao mesmo tempo em que descobre que está grávida. Quando Julien também descobre a gravidez, retorna.

Esse é o início de uma hesitante relação em que claramente não há mais amor, apenas uma substância viscosa que os envolve e mantém próximos. Algo em irreversível deterioração. O que ele têm não é mais uma relação, é uma doentia comodidade em não decidirem se ficam ou se partem.

Com algum humor, a narrativa trabalha esta relação através da fraqueza de ambos. Julien rejeita, inadvertidamente, Marie e sua gravidez, chegando a declarar asco por sua aparência. Mesmo diante de transtornos, recaídas na traição e uma clara infelicidade, Marie também não se define sobre a permanência de um relacionamento que a cada dia se deteriora.

Sem imergir no drama, mantendo um registro que se aproxima da farsa burlesca, o filme se mantém na superfície de uma história que parece tão indecisa em seus rumos e propósitos quanto o casal que retrata. Em meio a tanta hesitação, fica o irritante em dois personagens pelos quais é impossível sentir qualquer empatia. E um filme que quando se define, já deixou partir o interesse do espectador.
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